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Complexos Enzimáticos – Novos Avanços na Produção Animal

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Autor: Paulo Fernandes (D.Sc.) Embrapa Amazônia Oriental - Andréa Malaguido (M.Sc.)

Data de publicação: 12/04/2006


Novas tecnologias são constantemente apresentadas. O intervalo entre o desenvolvimento e a utilização prática das inovações geralmente é de várias anos. Na primeira etapa estudos laboratoriais demonstram a potencialidade de utilização. A segunda etapa envolve a viabilização de uso prático, com o desenvolvimento de processos industriais economicamente viáveis. As próximas etapas estão relacionadas à divulgação, comercialização e amadurecimento do projeto tecnológico. Atualmente, vários aditivos biotecnológicos têm sido rotineiramente usados na indústria animal. Para uma tecnologia ser adotada ela necessita ser comprovada cientificamente e testada em condições de campo.

Durante muitos anos, grande quantidade de pesquisas e fundos de desenvolvimento disponíveis para a indústria foram direcionados ao estudo de produtos enzimáticos para melhorar a digestibilidade de polissacarídeos não amiláceos (PNAs) em matérias-primas. Uma indicação potencial, para melhorar a densidade dos nutrientes de uma ampla gama de matérias-primas e reduzir consideravelmente os custos por tonelada de ração, pode ser demonstrada na Tabela 1.

Tabela 1 – Conteúdo e digestibilidade de PNA em diferentes matérias-primas

Matérias-primas

Total PNA
(% DM)

Digestibilidade
(%)*
Cevada 15 14
Trigo 10 12
Farelo de soja (48%) 20 0
Ervilha 22 18
Feijão 23 19
Farelo de colza 24 7
Trigo de rações 34 9
Girassol 28 17
Farelo de arroz 25 3
Gramíneas 28 5
Glúten de milho (20%) 31 17
* Medido em pintinhos.   ADAS (1992)


Os polissacarídeos não amiláceos (PNAs) não podem ser digeridos pelas não são digeridos pelas enzimas endógenas do trato gastrointestinal dos suínos, sendo fermentados pela microflora intestinal e produzindo gases na forma de ácidos graxos voláteis. Além disso, existem evidências de que parte dos PNAs possui atividade anti-nutriticional.

Um alimento é composto por várias substâncias distintas com funções nutricionais específicas. Para muitos desses componentes existem enzimas exógenas que podem melhorar o seu valor nutritivo (Figura 1).

Carboidratos

Os carboidratos podem ser quimicamente caracterizados em várias substâncias (Figura 2), cada uma delas com uma estrutura específica e uma função biológica distinta. Portanto, a variabilidade da composição em carboidratos explica as diferenças no valor energético de cada alimento.

Tabela 2 – Conteúdo de carboidratos no farelo de soja

Componente (%)
Carboidratos solúveis em H2O 12,02
Sacarose 5,98
Rafinose 1,07
Estaquiose 4,23
Hemicelulose 9,91
Celulose 7,09
(Fonte: Coon et al., 1990)  

O processamento do farelo de soja tem como objetivo reduzir os fatores anti-nutricionais da soja. Entretanto, reduzir não significa eliminar essas substâncias. As Tabelas 2 e 3 mostram a composição em carboidratos do farelo de soja. Para melhor caracterizar tais substâncias, as Tabelas 4, 5 e 6 apresentam uma classificação mais detalhada dos carboidratos, mostrando especificamente como eles são formados.

Tabela 3 – Proporção de carboidratos nos flocos de soja desengordurados

Componente (%)
Polissacarídeos acídicos 30
Sacarose 25
Arabinogalactanos 15
Estaquiose 15
Rafinose 6
Material celulósico 6
Verbascose 1
Amido 2
(Fonte: Hancock, 1991 citado por Goldflus, 2001)  


Através da avaliação da porção de carboidratos da soja e sua composição é possível se ter uma melhor visualização de alguns componentes indesejáveis tais como a rafinose e a estaquiose. A diferença estrutural entre elas está no número de carbonos e nas ligações glicosídicas (Tabela 5). Essas substâncias atuam como substratos para o crescimento microbiano intestinal. Além de serem indigestíveis, elas ainda favorecem a flora microbiana intestinal indesejável. A presença de a-galactosidase exógena poderia evitar esses problemas.

As enzimas endógenas produzidas pelos suínos são específicas para carboidratos com ligação alfa, tais como amido, e não são ativas contra carboidratos com ligações beta e oligossacarídeos contendo galactose, encontrados em várias sementes de plantas. Os oligossacarídeos, tais como estaquiose e rafinose, que estão presentes em muitas leguminosas, não são absorvidos no intestino delgado. A utilização destes carboidratos, portanto, depende da mistura de enzimas exógenas que decompõe os oligossacarídeos a outros constituintes monossacarídeos.

A celulose é uma fonte de carboidratos indigestíveis capaz de reter uma série de outros nutrientes em sua estrutura física, evitando o contato de enzimas digestivas endógenas com os alimentos. O uso de celulases pode colaborar para o aumento da disponibilidade de carboidratos no trato digestivo, agindo sinergicamente com outras enzimas endógenas e exógenas (Tabela 6).

Proteínas
Existem proteases exógenas específicas para proteínas de origem vegetal. Complexos multienzimáticos já contendo proteases e carboidrases são amplamente utilizados em avicultura e existe a tendência de se popularizarem na suinocultura. O uso simultâneo de tais enzimas com fitases é possível e vantajoso, conforme o custo dos substratos protéicos. O uso de enzimas pode aumentar a digestibilidade de substratos protéicos vegetais como a soja e o girassol.

Minerais
Parte do fósforo dos alimentos encontra-se em uma forma indisponível para utilização pelos animais. Os dejetos animais possuem entre 70 e 90% do fósforo ingerido pelos animais na forma orgânica e inorgânica (Gráfico 1). Grande parte do fósforo armazenado nas sementes está na forma de fitato e, por isso, indisponível para a absorção. As dietas de suínos apresentam-se como as de maior potencial para o uso de enzimas que aumentam a disponibilidade do fósforo. As fitases são enzimas capazes de aumentar o aproveitamento do fósforo e outros minerais tais como cálcio, zinco e manganês. Em muitos casos é possível reduzir o custo da tonelada de ração produzida com o uso destas enzimas.

As fitases foram as primeiras enzimas utilizadas em condições práticas no contexto da nutrição animal. A partir do sucesso dessa tecnologia, outras enzimas surgiram e também se consolidaram no mercado.

Lipídeos

As enzimas lipases podem ser usadas isoladamente ou em associação a outras enzimas em substratos ricos em óleos como o farelo de arroz. A sua utilização depende da oferta da matéria-prima no mercado e da relação econômica envolvida.

Poluição Ambiental

Sempre que se eleva a digestibilidade da dieta existe a redução da excreção de nutrientes nas fezes. Uma vez que toda produção animal intensiva tem potencial poluente, o uso de enzimas individuais ou na forma de complexos enzimáticos apresenta-se como uma alternativa ecologicamente correta.

O argumento ecológico para utilização de uma tecnologia deveria ser, preferencialmente, associado a uma vantagem econômica. As enzimas podem ser consideradas como um dos poucos aditivos que podem, potencialmente, reduzir o custo da tonelada de ração produzida.

Em momentos de crise, a economia no custo da ração pode significar a viabilidade econômica da atividade. Durante os períodos de bons ganhos econômicos a redução da poluição ambiental, o aumento dos ganhos econômicos e a melhoria na saúde dos animais justificam o uso das enzimas.

Para cada alimento uma enzima

Uma vez que as enzimas são específicas para cada substrato, a seleção da enzima adequada depende dos alimentos incluídos na dieta e da disponibilidade no mercado (Tabela 7).


Tabela 7 – Alimentos comumente usados em rações e enzimas potencialmente utilizáveis

Alimento Substrato Enzima
Soja Vários Complexo multienzimático
Girassol Vários Complexo multienzimático
Cevada ß-glucano ß-glucanase
Trigo Pentosana Pentosanase
Arroz Lipídeos Complexo multienzimático contendo Lipase
Fontes de fósforo Fitato Fitase


Tomada de decisão

A ração corresponde a uma importante parcela do custo de produção das granjas. A decisão de se utilizar enzimas ou qualquer outro aditivo na dieta deverá ser sustentada por parâmetros econômicos objetivos. A enzima deverá ser escolhida conforme o substrato, as oportunidades de preço e a disponibilidade no mercado. Isso varia conforme a região, época do ano, alterações climáticas e preço das matérias-primas.

A primeira etapa do processo decisório envolve conhecer e estudar os princípios básicos da tecnologia, obtendo as matrizes nutricionais recomendadas pelo fabricante e detalhando como a tecnologia deverá ser empregada.

A segunda etapa corresponde ao processo de simulação no computador. Os nutricionistas são os profissionais encarregados dessa tarefa. Duas dietas devem ser calculadas e comparadas: uma dieta referência, que corresponde à fórmula normalmente usada na propriedade, será comparada à dieta contendo enzimas.

A redução no custo final da dieta vai depender do custo local das matérias-primas. Algumas enzimas podem ser utilizadas sem alterar a formulação da dieta, com o objetivo de melhorar a performance.

Na terceira etapa é feita a utilização prática na granja. O acompanhamento dos testes de campo colabora para aumentar a confiança da equipe e assegurar que a tecnologia esteja sendo empregada corretamente.


Utilização prática
Na suinocultura as enzimas podem ser utilizadas de várias formas. Na maioria das vezes o objetivo é a redução do custo da tonelada de ração produzida. Quando o objetivo é aumentar a performance animal é feita a inclusão da enzima sem alterar a formulação original, esperando-se com isso aumento do ganho de peso, redução da conversão alimentar e melhoria da saúde dos animais.

Existem no mercado enzimas líquidas e em pó. O desenvolvimento de equipamentos de aspersão de enzimas com boa precisão e baixo custo viabilizou o uso de enzimas líquidas, mesmo em pequenas fábricas de ração. Os equipamentos precisam ser dimensionados e aferidos para cada planta individualmente.

Na produção de suínos, o desmame precoce é uma prática de manejo comum nas granjas, permitindo uma melhor utilização das instalações. A alimentação dos suínos, principalmente na fase de creche, requer atenção especial por parte dos criadores. O fornecimento de ração que estimule o consumo de alimento pós desmame e que forneça quantidade significativa de aminoácidos em proporções adequadas reduz o estresse e aumenta a taxa de crescimento.

A utilização de enzimas exógenas surgiu como uma alternativa para aumentar a digestibilidade dos ingredientes, minimizando problemas de má absorção e proliferação microbiana no intestino de leitões e, conseqüentemente, melhorando a  performance produtiva.


Considerações Finais

Toda atividade econômica vive momentos de crescimento que são intercalados com crises e situações difíceis. Isso deve ser encarado como um ciclo contínuo que, especialmente no Brasil, acontece com intervalos irregulares.

Durante os períodos de intenso crescimento os criadores ampliam suas instalações, constroem novas fábricas e conquistam mercados. Durante a crise elaboram estratégias, testam novas tecnologias e usam a criatividade para permanecerem no mercado e superarem as dificuldades.

A opção de se utilizar enzimas nas dietas de suínos com o objetivo de reduzir o custo da tonelada de ração produzida, sem interferir na performance animal, é muito adequada para a atual conjuntura econômica.



Paulo Fernandes (D.Sc.) - Andréa Malaguido (M.Sc.)



Referências Bibliográficas
Barnett, G.M. 1994. Phosphorus forms in animal . Metab. Clin. Exp. 49:139-147.

Coon, C.N. et al. Effect of oligosaccharide-free soybean meal on true metabolizable energy and fiber digestion in adult roosters. Poultry Science, 69: 787-793, 1990.

Goldflus, F. Ingredientes derivados do processamento da soja aplicados na nutrição animal. In: Simpósio sobre manejo e nutrição de aves e suínos e tecnologia da produção de rações. Anais. Campinas: 2001, p.97-188.

 Trabalhos. Gentility de Alltech de Brasil




Autor: Paulo Fernandes (D.Sc.) Embrapa Amazônia Oriental - Andréa Malaguido (M.Sc.)

Data de publicação: 12/04/2006

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